TDAH – Tratamentos Alternativos / Complementares

Sabemos que, no momento atual, o tratamento considerado mais eficiente para o TDAH é a combinação de medicação e intervenção terapêutica (em especial de abordagem comportamental ou cognitivo-comportamental). No entanto, com crescentes preocupações a respeito da banalização do diagnóstico e de sua medicalização, cresce a busca por alternativas aos tratamentos tradicionais. E elas estão surgindo com força cada vez maior, embora a maioria esteja num estágio inicial da investigação de sua efetividade.

Os dados a seguir têm por objetivo apresentar algumas dessas alternativas, e baseiam-se, em sua maioria, em estudos de casos, tendo apresentado eficácia para o tratamento de algumas pessoas, mas sem ainda ter passado pelo teste da generalização dos resultados, ou seja, apesar de terem funcionado em alguns pacientes, não necessariamente funcionarão em todos. Trazemos essas informações para expandir o conhecimento acerca dessas possibilidades, enquanto recomendamos que, caso haja interesse em algumas delas, busque-se conhecer mais sobre seus potenciais e limitações. No final do texto, você encontrará alguns links nos quais poderá se informar melhor sobre o assunto.

Vale lembrar que o uso dessas técnicas não vai necessariamente substituir o tratamento convencional, mas, na maioria das vezes, complementá-lo. É importante conversar com seu médico ou psicólogo antes de resolver aderir a uma dessas alternativas.

 

Yoga

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Uma criança hiperativa praticar Yoga pode soar absurdo. Se os portadores de TDAH tem dificuldade para ficar parados e concentrados, como poderiam ser adeptos de uma atividade focada no relaxamento e manutenção de posturas corporais? Porém, pensando por outro lado, o quadro parece mais interessante, afinal, o relaxamento, a concentração, a calma inerentes à prática da Yoga, costumam ser exatamente o que essas crianças precisam aprender.

Pode ser difícil no início. Inclusive, para grande parte dos casos, estar medicado pode ser uma condição essencial para viabilizar a atividade, ao menos no início. Outro fator que favorece a adesão das crianças é trabalhar a Yoga de forma mais lúdica, com a proposta de jogos e brincadeiras com as posturas, que ganham nomes que estimulam a imaginação da criança (postura do macaco, do elefante, etc.). Mesmo assim, os resultados podem demorar a aparecer: é necessário persistência por parte da criança e dos pais.

No entanto, uma vez que os praticantes habituam-se aos exercícios, os benefícios são grandes, manifestando-se nos três domínios do TDAH: impulsividade (realizar as posturas com calma, esperando o momento para passar para a próxima), hiperatividade (o relaxamento contribui para diminuir a inquietação) e desatenção (aprendendo, através da concentração nas posturas, a focar sua atenção em uma única coisa, sem focar nos outros estímulos ao redor). A prática frequente também pode resultar numa melhora na qualidade do sono (que costuma ser conturbado para os portadores do transtorno).

Os exercícios de respiração, meditação e concentração, também podem ser transpostos para o dia-a-dia, sendo utilizados para manter a calma perante conflitos (controle da impulsividade), antes ou durante eventos estressantes como provas escolares (aumento da calma e da atenção), entre outras estratégias que podem se utilizadas para lidar com dificuldades. É importante que o instrutor, que deve ser um profissional competente, oriente bem seus alunos e os ensine a fazer essa transição, generalizando os ganhos obtidos na prática do Yoga para as outras áreas de sua vida.

Xadrez

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Outra vez, uma situação que pode parecer difícil de imaginar: uma criança hiperativa sentada por grandes períodos de tempo, focada num jogo que exige um alto grau de concentração e planejamento. No entanto, o jogo de xadrez pode também ser um grande aliado da pessoa com TDAH, desde que apresentado no tempo e contexto adequados. Novamente se fará necessário que a criança já esteja recebendo algum tipo de tratamento, para que tenha condições de envolver-se com a atividade. Caso contrário, é provável que o portador de TDAH simplesmente não consiga manter-se jogando ou não se interesse o suficiente, o que resultará em frustração e minará qualquer chance de sucesso no emprego do xadrez no tratamento.

Além da melhora nos três sintomas nucleares do TDAH, a prática regular e sistemática do xadrez ajuda na criação de hábitos, que é algo muito importante de se desenvolver nas crianças em idade escolar, visto que facilitará o desenvolvimento do hábito de estudos, por exemplo. Aprende-se também a desenvolver a capacidade de tomada de decisões. Na vida, por vezes pagamos caro por decisões erradas; num jogo, as consequências limitam-se ao desenvolvimento da partida. Aprender a parar, pensar, antecipar consequências e desenvolver/adequar um plano é uma habilidade de vida essencial, que muitas vezes encontra-se prejudicada pela impulsividade característica da pessoa hiperativa.

O fato de ser um jogo a dois também beneficia as interações sociais. É comum que, ao final da partida, os jogadores discutam o seu desenvolvimento, compartilhando impressões e discutindo estratégias e possibilidades. Além disso, o xadrez também exercita a tolerância a frustração (quem já jogou sabe o quanto uma partida pode ser frustrante!) e ajuda a regular as emoções que as acompanham, desenvolvendo controle da impulsividade. Por fim, há um claro ganho no desenvolvimento da memória visual, processual e de trabalho, visto que se deve memorizar padrões de jogadas tanto para utilizá-las quanto para predizer os movimentos dos adversários.

 

Neurofeedback

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Nossa atividade cerebral pode ser medida por meio dos tipos de ondas elétricas geradas enquanto nos engajamos em alguma tarefa. Pode parecer complicado, mas na prática, podemos dizer que nosso cérebro se comporta de maneiras diferentes dependendo do tipo de atividade na qual nos engajamos. Nas pessoas com TDAH, há um aumento na presença de ondas theta, que são referentes a atividade e excitação, enquanto aparecem pouco as ondas beta e alpha, relativas ao relaxamento e à concentração, respectivamente. O neurofeedback consiste num treinamento neurocomportamental para o desenvolvimento de autocontrole sobre os padrões cerebrais.

Para tal, eletrodos são fixados ao couro cabeludo do indivíduo e registram sua atividade cerebral, que é analisada em tempo real por um programa de computador. Essa análise é traduzida em forma de imagens numa tela, geralmente assumindo um formato parecido com o de um video-game, no qual você ganha pontos conforme suas ondas cerebrais se aproximam do padrão desejado. Dessa forma, a pessoa é treinada a modificar sua atividade cerebral de modo a entrar num estado de maior atenção. É um aprendizado gradual, que requer diversas sessões para que o progresso resulte em mudanças significativas para a pessoa.

A eficiência do tratamento depende da motivação e engajamento do paciente, o que não costuma ser problema para as crianças com TDAH, pois, geralmente, a possibilidade de jogar um video-game sem controles, apenas com o “poder da mente”, é bastante atraente para crianças e adolescentes. Entre os benefícios dessa técnica podemos citar: aumento no ritmo de aprendizagem, melhora da memória de curto prazo, aumento da concentração, melhora na gestão do estresse e superar o medo do fracasso, melhora na velocidade de processamento de informações, melhores resultados em atividades artísticas e vísuo-espaciais, aumento na motivação, aumento da plasticidade neuronal (capacidade do cérebro de se adaptar a novas situações).

 

Project Neumann

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Um grupo de pesquisadores do Departamento de Psicobiologia da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), em parceria com o departamento de Medicina Molecular da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e com a Duke University, dos Estados Unidos, está desenvolvendo uma série de jogos eletrônicos que têm como objetivo treinar habilidades deficitárias em portadores do TDAH.

Um grande fator que atrapalha o sucesso dos tratamentos convencionais para o transtorno é a falta de motivação da criança para aderir a ele. E foi pensando nisso que o neuropsicólogo Thiago Rivero resolveu planejar um instrumento que fosse atraente para os pequenos e eficiente no desenvolvimento de aspectos importantes da cognição, como o controle inibitório, normalmente falho em quem tem o TDAH.

O projeto, batizado Project Neumann, consiste, na verdade, em quatro diferentes jogos, sendo que cada um conta com um herói e um vilão próprios, e se relaciona a um domínio cognitivo específico: dificuldade de focar atenção, dificuldade de controlar impulsos motores, dificuldade de ignorar distrações e dificuldade no controle do planejamento. Além de treinar essas habilidades, o jogo pretende ser uma ferramenta de sua avaliação, contando com um sistema que permite gerar gráficos e relatórios de desempenho no fim de cada fase para ajudar a monitorar a evolução dos jogadores.

 

Video-Games

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OK, então está em desenvolvimento um jogo que tem por objetivo ajudar as crianças com TDAH. Mas e quanto aos outros jogos eletrônicos? Esses que existem em disponibilidade quase infinita nas lojas e na internet? Também ajudam a desenvolver essas competências ou são prejudiciais para a criança que sofre com desatenção e hiperatividade? A resposta para essas perguntas não é simples e nem única. Podemos começar explicando como pode uma criança que não consegue ficar cinco minutos em silêncio, prestando atenção numa aula, passar horas sentada no sofá em profunda concentração num jogo eletrônico.

Grosso modo, podemos dizer que nossa atenção é mantida por recompensas. Quando achamos algo interessante, estamos sendo “recompensados” por manter nossa atenção. Os jogos eletrônicos são desenvolvidos de forma a dar recompensas quase que o tempo todo: marcamos pontos, concluímos desafios, obtemos vidas extras, evoluímos o personagem da forma como queremos, derrotamos oponentes. Tudo isso acaba por manter nosso envolvimento de forma extremamente eficiente. Algo que muitas vezes não acontece, por exemplo, numa aula de uma matéria que não temos nenhum interesse, ministrada por um professor monótono que não envolve os alunos nem faz nada para deixar sua exposição mais interessante.

Os jogos eletrônicos estão disponíveis de forma extremamente variável. Existem jogos de se jogar sozinho ou com mais pessoas, cooperativos, competitivos, sociais, complexos e longos, simples e casuais, enfim, estamos num ponto onde o avanço tecnológico permite transformar basicamente qualquer ideia em jogo. Quando pensamos em seu efeito numa pessoa com TDAH, devemos então, pensar em quais características deve ter um jogo que beneficiará as habilidades deficitárias do portador. Assim, os jogos mais adequados seriam os sociais, cooperativos, que possibilitam uma progressão de conquistas e do nível de dificuldade dos desafios, evolução do personagem e com feedback do desempenho do jogador.

Os jogos que possuem essas características estimulam o desenvolvimento de diversas capacidades no jogador, como a noção de tempo e planejamento, raciocínio vísuo-espacial, controle da impulsividade e comportamento social, no caso dos jogos sociais. Além disso, constituem um ótimo exercício para a concentração e para a motivação e persistência na tarefa, visto que, normalmente, são dadas diversas chances para que o jogador consiga alcançar seus objetivos.

Para além do jogo em si, o hábito de jogar video-games traz oportunidades que podem ser aproveitadas pelos pais: o estabelecimento de rotina e respeito às regras, quando se estabelece um limite de tempo diário para os jogos, ou condições para ter acesso a eles (por exemplo: só poderá jogar video-game depois que arrumar o quarto e terminar as tarefas da escola); e a aproximação entre filhos e pais, quando estes se interessam pelo jogo, jogando junto com suas crianças ou simplesmente assistindo e demonstrando seu interesse através de perguntas, comentários e elogios ao seu desempenho.

Por fim, ainda há a possiblidade de ganhos para a autoestima, domínio muitas vezes afetado nos portadores de TDAH, visto sua dificuldade em completar algumas tarefas simples do dia-a-dia ou da escola, que são completadas sem grandes dificuldades por outras crianças. Obter sucesso no jogo ajuda a diminuir a sensação de incapacidade perante os desafios.

 

Mindfulness

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Podemos definir Mindfulness (“atenção plena”, ou “consciência plena”) como a capacidade de prestar atenção no momento presente, sentir o agora, sem pensar demais ou estabelecer juízos de valor. A técnica foi criada no fim da década de 1970 pelo professor de medicina norte-americano Jon Kabat-Zinn, que pretendeu adaptar a meditação do Zen Budismo à realidade ocidental, ao perceber seu enorme potencial para a saúde. São práticas simples, sem viés religioso, que podem ser exercitadas em qualquer lugar, mesmo por períodos de tempo bem curtos.

A meditação altera nossa fisiologia, diminuindo o ritmo cardíaco, consumo de oxigênio, melhorando a qualidade do sono, a produção saudável de hormônios e, acima de tudo, a nossa atenção ao momento. Aprendemos a dar conta de onde está nossa mente e trazê-la de volta para onde devemos nos concentrar. Estudos comprovam a eficiência desta técnica também para o desenvolvimento do controle de impulsividade e memória. Os tratamentos com a aplicação de Mindfulness usam programas estruturados com duração média de 8 a 10 semanas.

 

Fontes:

Yoga

http://www1.folha.uol.com.br/folha/equilibrio/noticias/ult263u4192.shtml

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/beneficios-del-yoga-en-ninos-con-tdah.html

Xadrez

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/tdah-y-ajedrez-rehabilitacion-cognitiva-.html

Neurofeedback

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/neurofeedback-que-es-en-que-consiste-es-eficaz-para-tratar-el-tdah.html

Project Neumann

http://agencia.fapesp.br/videogame_pode_se_tornar_aliado_no_tratamento_do_tdah/17888/

http://blogs.estadao.com.br/link/psicologos-usam-game-contra-deficit-de-atencao/

Video-Games

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/los-videojuegos-en-el-tratamiento-del-tdah.html

Mindfulness

http://www.diariodaregiao.com.br/vidaeestilo/mindfullness-%C3%A9-nova-t%C3%A9cnica-contra-estresse-ansiedade-e-depress%C3%A3o-1.30260

http://www.fundacioncadah.org/web/articulo/tdah-mindfulness.html

 

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Gênero na escola? Como assim?

O assunto já gerou bastante polêmica, dos centros políticos às redes sociais. Então, nós da CooPsi, resolvemos olhar o assunto, fazer nossos apontamentos e desmistificar um pouco a questão. Mas antes de adentrar a fundo na questão, é preciso fazer uma diferenciação.

O que é opinião, ideologia e fato científico? Sem querermos nos estender ou dar uma definição acabada desses termos, podemos dizer que opinião é a percepção e o significado que as pessoas dão à realidade que as cerca. Normalmente é manifesta de forma aberta, explícita. Ideologia, por sua vez, pode ser compreendida como o conjunto de pressupostos, normalmente implícitos, que norteiam a vida das pessoas. Esses pressupostos envolvem grandes conjuntos de crenças pessoais, tais como religiosos, políticos, econômicos, sociais, etc. Por fim, fatos científicos são descrições da realidade a partir de paradigmas que são amplamente aceitos pela comunidade científica. Eles derivam de um grande conjunto de observações concordantes que estabelecem que uma dada descrição é verdadeira, condizente com o esperado por uma teoria científica, após vários testes que a comprovam usando algum método científico.

Feita essa diferenciação, o que iremos falar sobre a questão do gênero se baseará em dados científicos, afinal a CooPsi é formada por psicólogos, profissionais e estudiosos. E não poderíamos aqui apenas apresentar ‘achismos’, opiniões ou ideias vazias.

Falar sobre gênero vai além da sexualidade, da homossexualidade, da transexualidade e da heterossexualidade. Também nos faz falar sobre papeis sociais, sobre ser mulher, ser homem, feminismo, machismo e o uso de estereótipos. É muito mais do que falar sobre sexo.

Em um curso direcionado a psicólogos, a professora Valeska Zanello (da Universidade de Brasília) indica os processos históricos que nos fazem pensar sobre isso. Uma das coisas é que o que é considerado próprio a mulheres e a homens foi mudando ao longo do tempo, especialmente a partir da revolução industrial. A maternagem, por exemplo, não era exercida diretamente pela mãe nos primeiros anos de vida de uma criança, mas por uma ama de leite. Ela passa a ser papel da mãe biológica quando as mulheres começam a ter alguns direitos garantidos por serem mães (que antes não tinham). Mais recentemente, muito como fruto de movimentos feministas, com a inserção da mulher no mercado de trabalho formal, os papéis de gênero estão sofrendo mudanças, com uma diminuição no “gosto” feminino pela maternagem e um aumento lento e ainda repleto de desigualdades, mas ainda assim um aumento, da presença masculina no cuidado dos filhos e nas tarefas domésticas.

Outro exemplo é que, nos idos da idade média, rosa era uma cor masculina, e azul uma cor feminina. Hoje não há menina que não ganhe um vestido cor-de-rosa ou menino que não ganhe um sapatinho azul. Em uma pesquisa recente os autores concluíram que o gosto por essas cores em crianças não vem do nascimento como menino ou menina, mas sim da aprendizagem  – meninos são mais elogiados quando vestem azul e podem ser criticados ao usar rosa, e vice-versa. Assim, o que é de homem e o que é de mulher são atribuições de processos culturais e sujeitos a mudanças – ainda bem!

Ou seja, ser mulher e ser homem, em muito se relaciona em como a sociedade e cultura vê como devem ser exercidos tais papeis. E conforme muda a sociedade os papeis mudam também. Inclusive existem povos mais distantes da nossa cultura que apresentam papeis sociais bem diferentes dos nossos para homens e mulheres, havendo inclusive, alguns povos que não fazem distinção nenhuma entre as pessoas por causa das características físicas, quanto ao que as pessoas devam fazer ou como se portarem.

Lembra do ENEM e a citação de Simone de Beauvoir, “Não se nasce mulher, torna-se mulher”? O trecho representava justamente esse processo cultural que define como homens e mulheres se portarão às diferentes situações da vida, para além das diferenças e características biológicas de machos e fêmeas humanos. Para quem quiser ver um pouco a contribuição da biologia nesse debate, recomendamos o vídeo do Pirula sobre o tema:

Quando consideramos outras influências, para além do biológico na sociedade em que vivemos, esses papéis associados a gênero existem, são bastante demarcados e presentes. Porém eles estão novamente sendo revistos, mudando com o tempo, e às vezes, isso nos deixa bastante confusos sobre eles. Um exemplo humorístico dessa possível confusão é o vídeo “Casal Normal”do grupo Porta dos Fundos:

Apesar do vídeo ser uma peça de humor, apenas com o propósito de nos fazer rir, ele acaba por exibir bem a confusão que alguns fazem quanto a essas questões ligadas a gênero. E para tal confusão existe um motivo: estamos acostumados a colocar junto, num único pacote, vários fatores diferentes e que não estão naturalmente interligados entre si sobre o que é ser homem ou mulher.

Esperamos que a mulher tenha um corpo de curvas acentuadas, seja delicada, goste de rosa, maquiagem e roupas, tenha bom gosto estético, saiba cozinhar e se comportar com classe e educação. Tenha uma letra bonita, adore usar vestidos e acessórios e tenha como pretensão profissional ser professora, ou enfermeira, ou apenas mesmo dona de casa. E que goste de homens.

Esperamos que o homem seja forte e viril, não chore, seja incisivo e um pouco agressivo e grosso, goste de azul e não se importe muito com a roupa que use. Adore esportes e carros. Não precisa ter letra bonita, mas deve ser bom em cálculo. E ele deve ser um médico, ou engenheiro ou grande empresário. E claro, que goste de mulher.

Mas, veja que ali existem muitas coisas que não fazem sentido estarem juntas e não estão naturalmente interligadas. Onde o ter um tipo ou outro de genitália tem relação com o gostar de uma cor, ou ter uma habilidade? Onde apresentar um comportamento mais calmo ou agressivo tem relação com o gostar de homens ou de mulheres? Pois é, não tem relação alguma.

Quando falamos de gênero precisamos entender que algumas coisas andam separadas.  Uma coisa é o que você sente e pensa sobre si, como você reconhece ser perante esses papeis estereotipados de gênero masculino e femininoOutra coisa é o seu corpo, ou seja, a genitália com que nasceu e que possui, sua carga genética e seus hormônios.Outra coisa, ainda, é seu interesse afetivo e sexual.E ainda há o que você expressa, ou seja, o que as pessoas vêem você demonstrar desse conjunto.

O que nos leva a entender que gênero não é algo binário, feminino ou masculino. Mas sim algo cheio de graduações onde pessoas se encaixam em diferentes pontos e gerando variadas combinações. O mundo não é apenas preto e branco.

Para entender melhor, temos o diagrama abaixo que ajuda bastante. Imagem feita e adaptada ao português por Caio Alves.

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E também esses vídeos, o primeiro do Canal Psicriando, de nossa membro Gabi Mezzacappa e o segundo do Canal Minutos Psíquicos:

Depois de tudo isso falado, ainda nos vem a pergunta: “E a escola onde fica nisso?”

Quando pensamos em escola, o que vem à cabeça normalmente é educação, professores, aulas, vestibular, passar de ano, ser alguém na vida… De fato a escola possui várias funções, mas é importante destacarmos uma em especial, talvez a realmente primordial dela: Educar as crianças e adolescentes para que eles tenham elementos para contribuir e construir a sociedade em que estarão inseridos. Isso significa que a escola é um importante momento de socialização com pares, momento em que a criança entrará em contato com regras que deverão ser respeitadas (para além das que tem em sua casa), lidará com responsabilidades em graus crescentes, aprenderá e desenvolverá habilidades que serão úteis mais tarde, por exemplo, fazer contas para calcular despesas pessoais, entender um processo político a partir de sua perspectiva histórica, falar e escrever para que outros entendam sua mensagem. Uma boa escola prepara para o mundo, para viver, conviver e atuar nele (e até salvar pessoas, como a menina inglesa que salvou cerca de 100 pessoas de um tsunami na Tailândia – Folha, 2005, link no final do texto).

Ou seja, a escola é muito mais do que disciplinas, provas e notas. E como um espaço de convivência da criança e ambiente de sua formação, as questões de gênero já estão presentes (mesmo que ignoradas por educadores). Cabe à escola lidar com isso de forma a desenvolver a criança no seu potencial, suas habilidades e dar também a esta criança a compreensão de como lidar com o outro que é diferente de si e das pessoas com quem está acostumada.

Afinal na escola vai ter a menina que não gosta de rosa e quer jogar futebol, vai ter o menino que quer brincar de bonecas. E isso não significa que seus papéis sociais de gênero estejam ali definidos junto à sua sexualidade, significa apenas que naquele momento a criança apresenta um interesse por uma determinada cor ou atividade. Mas a forma como a escola, os educadores e as outras crianças se posicionam frente aquilo pode acabar por tolher a criança, gerando uma exclusão daquele círculo social e fazer com que esta deixe de desenvolver uma habilidade. E pode até levara criança a evasão escolar, afinal o ambiente que ela está, a escola, não a acolhe, a rejeita.

Quantas ótimas jogadoras de futebol, como a Marta, nós perdemos por proibir meninas de praticar um esporte saudável em favor de uma ideia estabelecida sobre o papel social da mulher? Ou quantos atores e dançarinos incríveis, como Fred Astaire, deixamos de ter por achar que arte e dança não é algo que cabe ao homem?

Por causa de certos conceitos ligados a gênero e como achamos de que deve ser, deixamos de fazer o mais importante na educação da criança, na função da escola, desenvolver suas habilidades e torná-la cidadã responsável que saiba lidar com as outras pessoas mesmo que estas sejam diferentes.

Apesar de ser um assunto de muita importância, ainda existem muitos buracos no tratamento dessas questões na escola. Várias profissões têm um conselho de classe que estabelece algumas normas éticas para a atuação de seus profissionais. Por exemplo, os psicólogos contam com a orientação e respaldo do Conselho Federal de Psicologia (CFP). É esse órgão que dita os deveres e as regras para que nós façamos um bom trabalho, em conjunto com nossa formação. Porém, não conseguimos localizar um conselho de classe dos professores, que unifique toda a classe e que direcione as ações do professor para, por exemplo, desestimular práticas de preconceito dentro das escolas.

Existe, sim, um Conselho de Pedagogos, mas o documento que rege as normas é vago no que diz respeito a essa questão. Mesmo o código de ética dos psicólogos é um tanto vago: ele menciona que não devemos agir de forma conivente com preconceito ou discriminação de qualquer ordem e possui normas específicas para o atendimento a transexuais e transgêneros, bem como à atuação relacionada à orientação sexual, porém não tem normas específicas para a atuação com relação às questões de gênero que, muitas vezes, estão por trás do sofrimento de muitas pessoas (transexuais, transgêneros ou não). Isso significa que falta algo para unificar a ação dos profissionais da educação em relação a dispositivos, papéis e problemas relacionados a gênero, não como prática pedagógica isolada, mas como conduta profissional.

Existem diretrizes governamentais nesse sentido, mas por não haver um processo fiscalizador como normalmente é feito pelos conselhos de classe, é difícil saber se, e como, as pessoas seguem essas diretrizes. Assim, muitas vezes, a forma de lidar com a questão e se ela vai ser processada, fica a cargo da escola, ou simplesmente da iniciativa do professor. Mas esse professor, esse pedagogo, está pronto para isso: ter que lidar com uma questão delicada e sem apoio ou suporte?

No momento da dificuldade para lidar com questões de gênero, por falta de informação disponível e na busca de experiências mais próximas, nós recorremos a conversas sobre o assunto de maneira informal com amigos e professores conhecidos sobre o assunto.

Para a maioria dos profissionais da educação, durante suas formações para professores, pouco se abordou essas questões, tanto em discussões como em técnicas de manejo no ambiente escolar.

São poucas as escolas que abrem espaço em sua grade para discussões desses temas com os alunos. Algumas inclusive acham que não se deva fazer, e vários preceitos religiosos de coordenadores da escola pesam sobre como e se o assunto será abordado.

Em escolas infantis, o assunto é muitas vezes completamente ignorado, passando a impressão que crianças são seres que não tenham sexo. Acabam por esquecer, ou deixar de lado, que a questão de gênero vai para além da sexualidade e por isso sem perceber, muitas vezes acabam reforçando comportamentos estereotipados, como fazer com que o menino não brinque de boneca e vá juntos dos outros meninos que estão brincando de bola. Ou falar para a menina que está brincando e correndo que ela deveria se arrumar e se portar como uma mocinha de verdade.

Muitas vezes é o professor sozinho, sem espaço e apoio da instituição escolar, e algumas vezes sem o apoio dos colegas de trabalho também, que precisa lidar com a questão e abordar tal tópico conforme a demanda surge. Ou seja, quando alunos trazem essa questão para a sala de aula, ou quando ocorre bullying ou brigas por questões ligadas a gênero e sexualidade dos alunos e o professor precisa mediar a situação. Ou ainda quando algum assunto que estudam no momento abre brecha para a discussão.

Apesar do cenário não parecer favorável, ficamos felizes em encontrar vários relatos de professores e seus colegas quanto à preocupação sobre a questão dos papeis de gênero e na atitude ética deles ao lidar com isso, buscando compreensão, levantando questões e reflexões para os alunos, fortalecendo o senso crítico, assim como a tolerância e a convivência com o diferente.

Mas, por que é tão importante isso para a criança na escola? A reposta é bastante simples. E já a pincelamos algumas vezes no texto. Crianças sofrem por não se compreenderem, não serem compreendidas e aceitas.

A professora Valeska Zanello também aborda em sua aula o sofrimento que está relacionado a essas questões de gênero. De forma geral, as mulheres sofrem violências cotidianamente, umas mais explícitas e diretas que outras. Sofrem por serem mães e por não serem mães, por serem belas ou não serem belas, coisas que são colocadas a elas pelas outras pessoas como definidoras de seu caráter ou sua personalidade. Ao mesmo tempo, os homens sofrem porque precisam cumprir um papel de providência e de eficiência sexual como definidoras de seu caráter ou personalidade – ai de você ser um homem que sonha em casar ou cuja renda não representa a maior parte do rendimento familiar, por exemplo.

Na escola, mais especificamente, não faltam relatos de sofrimento relacionado a gênero, como a Lorelay Fox bem coloca em seu vídeo e como vários de nós passamos nesse que é um dos principais ambientes em que aprendemos a conviver com pessoas diferentes de nós. O nível do sofrimento relacionado a questões de gênero nas escolas é tanto que em publicações oficiais nos é relatada a evasão ou desistência da escola por muitos alunos que não suportam a violência sofrida nesse contexto. Uma cartilha de formação de educadores para questões de gênero produzida pelo MEC traz as seguintes frases: “Esses modelos de comportamento sexual e social podem se tornar verdadeiras prisões ou fontes de agudo sofrimento quando os rapazes e as moças não se encaixam nos estereótipos de gênero (…)”; “(…) forja-se o chamado “pacto do silêncio” que submete, às vezes por longos anos, crianças e jovens, em especial as meninas, a situações de violência física, sexual e psicológica, com pesados danos para a sua saúde e integridade.” E “As manifestações de preconceito e discriminação causam sofrimento e provocam situações de exclusão social, dentro e fora do ambiente escolar”.

Infelizmente ainda existem poucos dados concretos sobre esses sofrimentos e sua gravidade porque as questões de gênero só começaram a ser estudadas pela ciência há relativamente pouco tempo e faltam pesquisas realizadas diretamente com as crianças a esse respeito. Mas conversas rápidas com quaisquer pais, professores ou amigos são capazes de revelar inúmeros exemplos desse sofrimento. Sugerimos que você faça o exercício de lembrar-se de momentos difíceis de sua infância na escola e pensar se esses momentos têm relação com questões de gênero e, da mesma forma, perguntar a dois ou três amigos sobre esse tipo de experiência. Se você não passou por isso, sem dúvida conhece uma ou mais pessoas que já passaram, embora possam ainda não ter falado nada a respeito para ninguém.

Além desses exemplos, temos ainda o sofrimento de gênero na escola entre os professores e funcionários, embora as crianças e adolescentes sejam os mais vulneráveis a essas questões, elas vão além do bullying ou da omissão de professores e funcionários quando acontecem com os alunos, até as relações entre professores e funcionários de diferentes gêneros, o que é explicado pela forma como isso permeia nossa cultura – a escola é uma instituição forjada culturalmente, então os problemas e características da sociedade em que ela se insere sem dúvida serão reproduzidas ali. Mas a escola, por seu caráter essencialmente formativo, tem poder de promover mudanças nessa sociedade a partir da formação de cidadãos com senso crítico e com espírito criativo.

Gostaríamos de agradecer, primeiramente a Lorelay Fox, que com seu vídeo, nos mobilizou para a questão e nos fez estudar um pouco mais para apresentar esse texto aqui.

Agradecemos também a todos os amigos educadores e professores com quem conversamos e consultamos informalmente sobre esse assunto e que também nos deram subsídios para realizar tal texto. Além de agradecer por seu belo trabalho na educação.

E por fim, agradecemos a você que conseguiu ler esse texto enorme. Esperamos ter podido ajudar na questão, trazer conceitos e ideias mais transparentes sobre o assunto.

Caso queiram mais detalhamento sobre algum ponto é só deixar comentários e podemos num outro texto abordar alguns tópicos mais profundamente.

E se vocês têm outras referências que possam ajudar na compreensão deste tema, indiquem nos comentários aqui ou em nossa página no Face, para continuarmos enriquecendo o debate.

Essas foram as referências que usamos para escrever este texto:

Hypescience.

Matéria que comenta o seguinte artigo: “Pretty in pink: The early development of gender-stereotyped colour preferences”.

Folha de São Paulo.

A aula da professora Valeska Zanello é fechada em um sistema só para psicólogos, mas você pode ler muito sobre o que ela faz no blog do grupo de pesquisa que ela coordena.

Sobre a construção social dos papéis de gênero, é possível baixar um bom artigo aqui.

Aqui, um pouco sobre o sofrimento de gênero e sua relação com a evasão escolar.

Isso também está presente na cartilha do MEC que aborda esse assunto.

Sobre a importância de se abordar questões de gênero nas escolas.

Aqui também tem mais sobre gênero na escola.

Este é o documento que traz diretrizes éticas para a atuação do pedagogo e da pedagoga.

Cartilha em pdf com informações sobre identidade de Gênero: Orientações sobre identidade de Gênero: conceito e termosOrientações sobre identidade de Gênero: conceito e termos.

Sobre a desconstrução de gênero: Butler e a desconstrução de gênero.

E estes os produzidos pelo CFP que se relacionam à questão:

Código de Ética Profissional do Psicólogo (Princípios Fundamentais, itens I, II,III; Art. 2º, incisos a, b, c; Art. 19º);

Nota de esclarecimento sobre atendimento a pessoas com sofrimento relacionado à orientação sexual;

Normas para a atuação em orientação sexual;

Sobre a despatologização das transexualidades e travestilidades;

Nota técnica sobre o atendimento psicológico a transexuais.

Lidando com as emoções infantis

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As emoções podem ser algo difícil de lidar. Sobre isso, acredito que ninguém tem dúvidas. Creio, no entanto, que a maioria de nós se esquece do tamanho do desafio que isso representa na infância. Se, como adultos, já sofremos para entender e lidar com nossos sentimentos, como fica essa situação para um ser ainda em formação, que não sabe nem dar nome àquilo que está sentindo?

Se os pequenos têm dificuldades nesse tipo de situação, o mesmo é verdade para aqueles que são responsáveis por ele. Não podemos, porém, perder o foco de quem é quem nessa relação: é esperado que uma criança pequena, cheia de raiva por ter que parar de brincar pra tomar banho, esperneie, grite e fique agressiva, enquanto um adulto não pode ceder dessa forma aos seus impulsos. Mas atenção: dizer que esse tipo de reação é esperado, não é o mesmo que afirmar que ela é correta ou deve ser tolerada, mas sim que deve ser compreendida e trabalhada.

E essa é a regra pra lidar com qualquer sentimento de crianças de qualquer idade: compreensão. Devemos, em primeiro lugar, escutar, acolher, entender o que o pequeno está sentindo. Pedimos que ele nos conte a situação, e, para mostrar que compreendemos (e conferir se realmente entendemos o que a criança está tentando dizer), repetimos em outras palavras: “então quer dizer que seu amiguinho quebrou seu brinquedo preferido, e por isso você está com raiva dele? Poxa, acho que eu também me sentiria assim!”. O nome disso é “escuta espelhada”, e mostra para a criança que estamos prestando atenção no que ela diz e nos esforçando para entendê-la.

Outra indicação muito importante é nunca invalidar ou ignorar o que a criança sente, mesmo que para você não faça o menor sentido. Se seu filho sente-se triste porque você está saindo pra ir à padaria, por acreditar que não vai mais voltar, respeite essa aflição e converse a respeito dela. Se for possível, leve-o com você. Um sentimento muitas vezes tratado levianamente pelos pais é o medo. O que é imaginário para você, é muito real para uma criança pequena! Se você obriga sua filha a dormir sozinha num quarto onde, ela tem certeza disso, há um monstro embaixo da cama, saiba que estará proporcionando para ela uma noite de puro terror! Dizer que monstros não existem não ajuda em nada, e ainda ensina pra criança que seus sentimentos e seu sofrimento não são relevantes.

Ensinar o nome dos sentimentos também é algo que deve ser feito. Saber do que se trata aquele aglomerado de sensações físicas estranhas ajuda a lidar com elas. Converse com seu filho: sabendo o que aconteceu e as sensações que aquilo causou a ele, podemos ajuda-lo a nomear o sentimento em questão. “Isso é arrependimento meu filho, você está chateado por ter tratado mal a sua amiga… porque não pede desculpas para ela amanhã? Você pode levar um brinquedo seu na escola para brincar com ela na hora do intervalo”. Dessa forma seu filho aprende a lidar apropriadamente com cada emoção, e a confiar em você para se abrir e contar o que lhe acontece.

Por fim, vale lembrar que crianças aprendem muito com o modelo dos adultos, principalmente dos pais. Não adianta você recriminar sua filha por gritar com você quando tem raiva, se você também berra quando ela faz algo errado. Ser pai e mãe é isso: procurar ser uma pessoa melhor, ser aquela pessoa que você deseja que seus filhos sejam.

Pro Gabriel Baptista – Psicólogo – CRP 06/127340

UHULLL! Férias!!

Para alguns, ela já chegou. Outros aguardam por elas ansiosamente… É hora de esquecer a mochila num canto do quarto, deixar o uniforme dentro da gaveta, não precisar acordar cedo, poder brincar e passear… As férias escolares são mesmo uma delícia, não é?

Só que nem tudo são flores… Algumas coisas misteriosas acontecem nas férias e merecem um pouquinho de atenção. Às vezes acontece de sentirmos uma grande alegria e uma expectativa boa de tudo que vai dar pra fazer, curtir e aproveitar durante esse mês de descanso – e isso é ótimo! Mas às vezes o que a gente sente é alívio – ainda bem que acabou o martírio… Neste caso, vale a pena pensar um pouquinho o porquê do alívio, pois ele pode indicar problemas que podem ser resolvidos ou evitados para que o próximo semestre não seja tão ruim assim. Mas não é sobre isso que quero falar hoje.

Hoje quero falar sobre quando as férias chegam ao final e voltamos às aulas “enferrujados”. Parece que a cada dia demora pra pegar no tranco. O professor que antes falava em um português bem claro agora parece falar grego – ou um dialeto klingon. O que aconteceu? A matéria ficou mais difícil de repente? O professor aprendeu uma nova língua? Ou será que tem algo a ver com o que fizemos nesse mês todinho de descanso?

Para descobrir isso é importante saber quem é o grande responsável pelo que aprendemos: o nosso cérebro. Ele não é um músculo, mas assim como eles, precisa estar em constante movimento para se fortalecer – quanto mais usamos ou falamos sobre algo que aprendemos na aula, maior a chance de lembrarmos no futuro e mais fácil aprendermos algo novo em cima dessa aprendizagem anterior. Daí quando passamos as férias inteirinhas assistindo TV, ou jogando bola, videogame, não quer dizer que estejamos fazendo “nada” – tudo isso são coisas que fazemos! Mas como são coisas muito diferentes do que fazemos na escola parece que, quando as férias acabam, trava tudo.

E como fazer para evitar esse desconforto de voltar às aulas sem “estragar” as férias com atividades que lembram a escola? (Lembrando que se é tão ruim porque lembra a escola, algo não está legal e precisa ser investigado com um bom profissional.)

Não existe uma receita de bolo, mas a dica é buscar algo que você goste de fazer mas que requeira comportamentos ou ações parecidas com as da escola… Por exemplo, se você tem aulas de português e precisa interpretar textos, pode escolher um livro bem divertido e interessante para ler nas férias. Já para a redação, pode tentar escrever uma poesia ou um texto sobre um assunto interessante que você viu na TV – ou até sobre seu videogame favorito. Se precisa usar lógica e raciocínio para as aulas de matemática, uma boa ideia seria convidar um parente ou amigo para uma partida de xadrez ou um jogo de cartas. Se o negócio é geografia, pode-se jogar Carmen Sandiego (um joguinho da época dos disquetes em que você seguia uma criminosa por vários países do mundo a partir de bandeiras e outras informações sobre o país – eu jogava com um atlas do lado – hoje existem versões para o celular e tablet). Enfim, opções não faltam!

A chave é escolher algo gostoso e divertido para colocar entre um jogo de videogame e um passeio com os amigos que mantenha seu cérebro ativo e que pareça um pouco com as atividades da escola, de forma que não seja uma lição de casa para as férias, mas que também não deixe a cuca enferrujar.

E aí, vamos tentar? Depois me conte como foi!

Um grande abraço e boas férias!

Gabriela G. Mezzacappa.

O que de fato as crianças precisam

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Nós da CooPsi e outros psicólogos e profissionais que trabalham em contato com famílias temos presenciado cotidianamente pais que passam por dificuldades ao educar seus filhos.

Há um grande número de fatores que interferem nesse tipo de questão, alguns de caráter individual, outros que têm relação com o jeito que nossa sociedade funciona de maneira geral.

O texto que apresentamos abaixo é uma tradução livre de um artigo publicado pelos autores Alan E. Kazdin e Carlo Rotella, dos Estados Unidos, na Slate Magazine. Ao lermos, achamos que vem bem a calhar para diversas situações de dificuldades na educação de crianças e na promoção de práticas adequadas – como fazer sua lição ou arrumar sua cama. Claro que há que se considerar, além dos aspectos que o texto traz, a faixa-etária de cada criança para que não se exija mais do que ela é, naquele momento, capaz de fazer.

O quadro abaixo ajuda a ter uma noção dessas diferentes etapas.

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Gostaríamos de destacar o grande pressuposto que baseia o texto que postaremos abaixo: o maior motivador de mudanças de comportamento é, segundo um grande número de estudos científicos, o elogio. Porém é necessário estabelecer parâmetros para o comportamento: “Filho, por favor guarde seus brinquedos.” é um bom começo para iniciar o novo comportamento. “Nossa, como você deixou o quarto bonito e arrumado! Muito obrigada por todo o seu esforço!””Fiquei muito feliz porque você fez todas as tarefas hoje!””Adoro como você tem me ajudado com a louça!”… Tudo isso com sinceridade, olhando nos olhos, com um sorriso nos lábios faz com que a criança se sinta feliz, valorizada e que venha a repetir aqueles comportamentos elogiados.

O que de fato as crianças precisam é de amor. Pode parecer a informação mais óbvia do mundo para alguns, mas colocar isso em prática nem sempre é tão óbvio assim.

Vamos ver, então, o que nossos colegas estadunidenses têm a nos dizer sobre isso. Essa é uma tradução livre, portanto, se quiser ler o original em inglês, basta clicar no título abaixo:

Se você for bonzinho, vou te comprar um brinquedo

A diferença entre subornar sua criança e recompensar sua criança

Por Alan E. Kazdin e Carlo Rotella, Slate Magazine, 26 de março de 2010

A ideia de recompensar crianças pelo bom comportamento em si mesma leva um bocado de adultos para o caminho errado. Mesmo quando eles aceitam que o reforçamento positivo é muito mais eficaz que a punição para mudar comportamentos, eles ainda têm objeções a usar recompensas de maneira geral e especificamente para comportamentos que eles consideram que não são mais que uma obrigação de uma criança. Eles simplesmente não conseguem louvar o fato de que uma criança com sete anos não jogou um refrigerante no chão no supermercado, ou dar a ela pontos em uma tabela ou um pequeno prêmio.

Recompensar o comportamento desejado é apenas um dos elementos do reforçamento positivo, que um profundo corpo de pesquisas durante muitas décadas estabeleceu como o jeito mais efetivo de mudar comportamentos. Mas muitos pais (e professores, e babás) fazem objeções razoáveis no sentido de que dar uma recompensa a uma criança acaba sendo uma forma de suborná-la. “Ele só faz aquilo por causa da recompensa”, dizem eles. Eles querem que o pequeno se comporte por motivos melhores: porque ele deve, porque é sua responsabilidade, porque eles dizem a ele que o faça. As famílias que vão ao Centro de Parentagem Alan’s de Yale muitas vezes resistem a usar recompensas, o que leva a algumas típicas trocas com os treinadores de lá.

Objeção: Eu não quero recompensar os comportamentos que a criança deveria fazer de qualquer maneira porque isso faz parte de suas responsabilidades normais.

Esse é um ponto razoável. No entanto, se a criança não está se comportando agora, ou não o faz com a frequência necessária, ou não o faz sem uma briga, parece prático questionar: “Qual é a melhor forma de fazer acontecer?” Reprimendas e ameaças não funcionam muito bem e muitas vezes têm efeitos colaterais que aumentam o descompromisso da criança e diminuem a probabilidade que ela faça o que é pedido. Tipicamente, as reprimendas e ameaças funcionam exatamente como os subornos. Elas podem fazer surgir o comportamento por um momento, mas a criança não continua a se comportar como deveria exceto se houver a ameaça. Isso é, o comportamento não se estabiliza num hábito ou numa expressão de uma característica geral que queremos desenvolver, como honestidade, bondade ou generosidade.

Objeção: Se nós usarmos recompensas para conseguir o comportamento, o comportamento vai parar quando pararem as recompensas, o que significa que teríamos que dar recompensas para sempre para manter o comportamento acontecendo.

Esse é um cenário de pesadelo – o tipo de vínculo perpétuo que têm algumas pessoas que tomam medicamentos, como aqueles que diminuem o colesterol.  Você terá que dar dois pontos positivos pela criança não usar o peniquinho antes dela ir prestar a prova do vestibular? Ainda bem que não é assim que funciona quando se usa recompensas de forma efetiva para melhorar comportamentos.

Você elogia o bebê por usar o peniquinho e por dizer “obrigado” e por não usar a toalha de mesa para assoar o nariz, mas na época do vestibular (e idealmente desde uns 14 anos antes disso) ela já terá esses hábitos estabelecidos e não precisará mais de reforçamento com relação a eles. O período relativamente breve no qual você louvou esses comportamentos já terá terminado há muito tempo. Se um comportamento é mantido e se torna um hábito tem muito a ver com como as recompensas são oferecidas. A chave não está nas recompensas em si, mas na forma consistente de elogiar ou recompensar cada vez que a criança se envolver no comportamento. (Não se esqueça: atenção e elogios são recompensas e, de fato, as suas recompensas mais valiosas.) Incentivos não sistemáticos ou pontuais vão levar à dependência da recompensa, e o comportamento provavelmente parará de aparecer quando você parar de recompensá-lo.

Da perspectiva da modificação de comportamentos, essa é a diferença crucial entre um suborno e uma recompensa. Um suborno não é parte de um esforço sistemático para desenvolver um comportamento de forma que ele se mantenha mesmo que não haja mais a recompensa, mesmo nos casos em que ele está acontecendo há um longo tempo. Mesmo que você venha pagando o mesmo cara no centro da cidade para distribuir panfletos para você por anos, se você parar de pagá-lo ele vai parar de distribuir seus panfletos. Uma recompensa, ao contrário, quando usada adequadamente em combinação com antecedentes (o que você faz e fala para promover o comportamento desejado) e modelagem (recompensar sucessos parciais para constituir o comportamento) e outros elementos de um esforço sistemático para uma mudança de comportamento duradoura é uma medida temporária que pode ser interrompida uma vez que o comportamento esteja estabelecido. O comportamento continua sem a recompensa, assim como uma construção concluída continua a ficar em pé depois da retirada dos andaimes.

Objeção: Recompensas vão arruinar a motivação intrínseca do meu filho para fazer as coisas em seu próprio benefício.

Não, elas não vão, não se utilizadas adequadamente. Enquanto uma tática improvisada e pontual de “faça isso para conseguir aquilo” não vai desenvolver o comportamento que você quer e pode destruir a motivação intrínseca, as recompensas utilizadas para desenvolver sistematicamente o comportamento podem estabelecer hábitos que se tornam independentes de quaisquer recompensas. Um exemplo que os adultos relatam a respeito de seu próprio comportamento é fazer exercícios. No início pode ser uma luta se exercitar regularmente. Quando chega a hora de malhar você sente uma necessidade imensa de dormir ou de ficar tranquilamente assistindo Vale a Pena Ver de Novo até que o momento passe, e você pode não chegar à academia a não ser que seu parceiro intervenha para oferecer uma recompensa temporária (você é um adulto, use sua imaginação ;)). Mas a repetição do comportamento estabelece um hábito, e o comportamento se torna sua própria recompensa. Você pode até se tornar um fanático que fica levemente perturbado ou seriamente desgostoso se uma doença, trabalho ou algum outro empecilho chato faz com que você não consiga ir à academia num determinado dia. Não há mágica nas recompensas em si. Elas são apenas auxílios para fazer o comportamento acontecer repetidamente de forma que um hábito possa se desenvolver.

Objeção: recompensas não são consequências naturais. Quando minha criança crescer ela verá que o mundo não estará esperando para elogiá-la ou deixá-la jogar video-game por fazer o que ela deveria fazer.

Justo. Mas é necessário romper com a ideia de que o lar deve ser exatamente como as outras situações que a criança experienciará quando crescer. O lar é um lugar único onde a criança desenvolve resiliência, competências, vínculos e apoio de formas que têm pouco a ver com experiências que ela terá mais tarde, exceto o fato que essas coisas preparam a criança a respeito do que aprender da vida. Além disso, a forma adequada de recompensar tem alguns aspectos redentores que abordaremos mais adiante.

Objeção: Recompensas não funcionam. Eu tentei uma dessas tabelas de pontos e nada mudou.

Uma tabela de pontos, se é que você precisará usar uma, pode funcionar muito bem. Além disso, a maior parte das famílias que chegam ao Centro tentaram tabelas de pontos e as recompensas que as acompanham. Esses esquemas não funcionaram, obviamente, ou eles não teriam nos procurado para resolver seus problemas de conduta. Mas isso não justifica concluir que os programas de recompensas simplesmente não funcionam. O equivalente seria tentar dirigir com o carro em ponto morto e com o freio de mão puxado e sair dizendo que carros não funcionam. Há pesquisas sobre como fazer esses programas funcionarem, e as mesmas pesquisas explicam por que tantos deles dão errado:

1. Atirar para todos os lados. Alguns pais improvisam recompensas de sopetão e as atiram sem preparo prévio mirando no alvo móvel do comportamento da criança. “Paulinho, pegue minha bolsa lá em cima e você poderá assistir mais cinco minutos de TV”… “Paulinho, nós vamos ao mercado, se você colocar seu casaco e seus sapatos agora você pode comer um bombom quando a gente voltar”… “Paulinho, se você ficar de olho na sua irmã um pouquinho você pode dormir mais tarde hoje.” Esses pais estão atirando para todos os lados, lançando recompensas como aviõezinhos do Sílvio Santos para encorajar um monte de comportamentos diferentes. Essa abordagem confirma a sabedoria de todas as objeções das quais já falamos. Não vai desenvolver motivação intrínseca ou hábitos, mas apenas gerar obediência relacionada às recompensas oferecidas naquele momento – isso é, ao suborno. Uma vez que a recompensa deixe de existir, cada um dos comportamentos provavelmente deixará de existir também.

2. O sistema de recompensas “rifando a bola”. Alguns pais muitas vezes recompensam grandes resultados que ocorrem ao final de um longo período de tempo. Prometer um super-prêmio pelas boas notas na escola no fim do ano é, talvez, o exemplo mais comum. Pais que querem fazer que seus filhos estudem, façam a lição e tenham boas notas – e que aprenderam que implorar, punir e ameaçar muitas vezes não funciona – acabam recorrendo à “rifagem de bola”. Tipicamente, eles prometem ao filho ou à filha uma grande recompensa – uma ida ao Hopi Hari, um novo celular – se ele ou ela tirar 10 em tudo na média final do ano. Esse é um uso equivocado das recompensas que é praticamente fadado ao fracasso.

O objetivo de um programa de recompensas deveria ser construir comportamentos, ações e hábitos específicos: trazer para casa as tarefas vistadas pelo professor regularmente, fazer as tarefas regularmente, estudar com um dos pais e depois sozinho, conversar um pouco sobre uma ou duas coisas que tenha estudado quando todos estiverem à mesa no jantar. Todos esses são comportamentos específicos e hábitos que podem contribuir para ter boas notas – sem contar a aprendizagem. O foco em resultados em longo prazo por si só – 10 no final do ano – enfatiza a coisa errada e cria um abismo entre o comportamento adequado do cotidiano e a recompensa que deveria reforçá-lo. Mesmo que a criança consiga as notas, esse resultado pode ser obtido por todo o tipo de motivo (inclusive colar) e nem sempre vai ajudar a desenvolver os bons hábitos que queremos propiciar.

3. Sistemas de recompensa complexos. Alguns pais que vêm ao Centro criaram sistemas de pontos complexos que têm prêmios variados que podem ser ganhos com diferentes totais de pontos e bônus extra em abundância. Eles também fazem tabelas esteticamente bonitas nas quais os pontos são marcados como, por exemplo, pintas no corpo de uma onça ou de uma joaninha, ou como planetas ou estrelas no espaço. Não há motivos para criticar tabelas que são mais criativas e divertidas – desde que você tenha em mente que elas não são necessariamente mais eficientes. Mas se você ficar muito focado no sistema de recompensas em si, você pode acabar se desconectando de seus resultados.

Quanto mais complexo o sistema, mais difícil é mantê-lo e administrá-lo corretamente. Sim, se feito direito, pode funcionar também. Sim, variações de sistemas como esse têm um nome técnico – uma economia de fichas – e têm sido usadas na base de treinamentos militares, no contexto educacional desde a creche até a faculdade, nos equipamentos de atenção a idosos para aumentar as atividades sociais e as interações entre eles, em locais de trabalho para promover hábitos de uso de equipamentos de segurança… Em todos esses espaços, provou-se que mesmo sistemas de recompensa relativamente simples funcionam. Eles podem funcionar em casa também, mas você provavelmente não tem necessidade de usá-los. Os pais podem modelar a maior parte dos comportamentos que eles querem promover oferecendo recompensas que não vão além da atenção, do elogio e de alguns pequenos privilégios.

A atenção dos pais é muito recompensadora para uma criança, e o elogio é ainda melhor. Os pais dão atenção o tempo todo e também formas sutis de elogio, verbal e não-verbal (um sorriso, um toque, uma expressão de fascínio ou de ternura). Atenção e elogios são nossas principais recompensas, e muitas vezes são suficientes para modificar comportamento sozinhos, sem recorrer a fichas, privilégios ou prêmios.

Mas atenção e elogios podem ser usados de forma mais precisa do que normalmente são. É comum cometer o erro de devotar a maior parte de nossa atenção para o mau comportamento, em vez de focar o bom comportamento, e o elogio é muitas vezes esporádico, não muito específico (o genérico “muito bem” não se refere exatamente àquilo que a criança fez de bom), não é muito animado e não é sistematicamente conectado a algum comportamento que os pais querem desenvolver.

Quando você usa o elogio conscientemente para mudar comportamentos, a chave é atentar para o comportamento e elogiá-lo prontamente, especificamente e precisamente, de forma que ele volte a acontecer para poder ser elogiado de novo. Nós queremos que o comportamento se repita para se tornar um hábito, e o elogio ajuda a chegarmos a isso.

Para fazer um elogio eficiente:

1. Seja específico sobre os comportamentos que você quer. Explique a si mesmo, primeiro, e depois para a criança qual é o comportamento específico que você espera dela. Orientações vagas como “seja legal” ou “mostre respeito” são muito gerais. Em vez disso, tente dizer “Quando você brincar com sua irmã mantenha a voz baixa e não pegue os brinquedos dela” ou “Quando falar com a vovó se mexa devagar e não faça aquele gesto feio que o vovô te ensinou.” Quando você vir o comportamento desejado, elogio-o especifica e entusiasmadamente (quanto mais nova a criança, mais animado você deve ser): “Você ficou sentadinho durante todo o jantar e falou baixinho! Adorei!”

2. Identifique um número pequeno de comportamentos. Comece com não mais que dois ou três comportamentos que você quer que a criança desenvolva. Você conseguirá substituí-los mais tarde por novos comportamentos uma vez que esses iniciais tenham se estabelecido. Lembre que a recompensa não produz os resultados – o que você quer é encorajar a repetição do comportamento, ou de amostras aproximadas desses comportamentos. Você quer focar em conseguir que alguns comportamentos se tornem hábitos para depois estimular outros.

3. Ofereça modelos do comportamento que você espera. Mostre à criança exatamente como deve ser o comportamento. Mesmo que ela “saiba”, vai ajudar se você demonstrar. Então peça para a criança repetir o que você fez e elogie-a por ter copiado qualquer parte que seja desse comportamento. Se você vir outras pessoas no dia-a-dia – enquanto você está numa loja ou num restaurante ou num passeio – aponte o comportamento desejável que você acabou de ver. Outras pessoas podem ser usadas como modelos se você apontar o que elas fizeram e fizer comentários positivos e de aprovação a respeito.

4. A chave é a repetição, então pratique. Nós recompensamos comportamentos para encorajar a repetição, o que é chamado de prática de reforçamento. Se sua criança já faz o que você gostaria de vez em quando, elogios sistemáticos podem tornar esse comportamento um hábito. Se a criança ainda não faz o comportamento no cotidiano, pratique no faz-de-conta, na brincadeira. Se a criança praticar o comportamento na brincadeira ou na fantasia, elogie.

Uma criança pequena que não quer dormir na hora certa pode melhorar nisso se você praticar um pouco. Essa prática de faz-de-conta pode ser feita durante o dia. Faça como uma brincadeira. Ela vai ao quarto e se deita na cama como se fosse hora de dormir – e se certifique de elogiar isso também.

Praticar o comportamento na brincadeira também é praticar e também constrói o comportamento. Lembre-se: pilotos de aviões praticam o tempo todo em situações de faz-de-conta (chamadas simuladores), e essa prática faz com que saibam como agir na situação real. Boxeadores treinam na academia para desenvolver hábitos que eles usarão na noite de luta. É a mesma coisa com os comportamentos que você quer desenvolver em casa.

5. Modele o comportamento desejado recompensando aproximações graduais a ele. Se o comportamento ainda não acontece do jeito que você quer – não é uma hora inteira de prática de violão, não é uma hora inteira de tarefa de casa por dia – elogie durações menores e sucessos parciais e aumente a exigência ao longo do tempo.

O uso de elogios para desenvolver comportamentos do jeito que descrevemos aqui é sistemático, temporário e uma adição proposital – mas não uma substituição – à atenção calorosa que você normalmente dá às suas crianças pelo simples fato de amá-las. Por que não testar durante um tempinho? Digamos, três dias. Por três dias, tente usar os elogios como recompensas da maneira que indicamos acima. Você já vai ver algumas diferenças no comportamento da criança e no clima emocional de sua casa.

Elogio é uma das experiências positivas mais impactantes na construção do relacionamento entre pais e filhos. Muitos pais e outras autoridades confiam, porém, em ameaças, palmadas e punições de forma generalizada em vez de ensinar respeito. Mais punição leva a criança a fugir e evitar quem a pune, elogios mais eficientes fazem com que haja aproximação e melhora no relacionamento. Porque o elogio a comportamentos adequados diminui a necessidade de punição é que ele ajuda a fazer a família mais unida e calorosa. Na busca de encontrar um equilíbrio, a regra de ouro para a mudança de comportamento é que o elogio ao bom comportamento deve ser muito mais frequente do que a punição ao comportamento que você quer eliminar.

Nada disso se parece com um suborno. Recompensas tendem a se tornar subornos quando não são consistentes, sistemáticas e são desconectadas de expectativas claras dos pais, bem como quando são usadas para tentar que as crianças façam coisas que são diferentes ou até opostas ao modelo que você fornece com o seu próprio comportamento.

Alan E. Kazdin, que foi presidente da American Psychological Association em 2008, é professor de psicologia e psiquiatria infantil na Universidade de Yale e diretor do Centro de Parentagem e da Clínica de Conduta Infantil de Yale. Carlo Rotella é diretor de Estudos Americanos na Faculdade de Boston.

Lembrando do passado, pensando no futuro…

Dois mil e treze chega ao fim. Para nós, da CooPsi, o fim deste ano representa a promessa de um 2014 permeado de mais e mais oportunidades para auxiliar estudantes, pais e profissionais a terem uma relação mais serena e produtiva com aspectos que são, hoje, de grande importância nas vidas das pessoas: os estudos e a profissão.

Neste ano, aprendemos muito, e temos muito a agradecer. Agradecer a todos os clientes que confiaram no nosso trabalho e nos deram o privilégio de acompanhá-los em suas escolhas e progressos; agradecer aos nossos parceiros que igualmente confiaram em nós, e nos deram respaldo, espaço e apoio para a realização de nosso trabalho; agradecer a cada profissional que fez parte de nossa história e àqueles que ainda hoje empenham horas e mais horas para o aperfeiçoamento de nossos serviços e para a consolidação de nosso empreendimento; agradecer ao Fórum de Economia Solidária por nos acolher como parte da construção de alternativas econômicas inclusivas e cooperativas.

O balanço deste ano foi bastante positivo: iniciamos e consolidamos parcerias, nos fortalecemos na gestão cooperativa e compartilhada de nosso empreendimento, melhoramos as condições de trabalho de nossos membros… Claro que houve percalços, e vemos aspectos para melhorar – o que é, a nosso ver, maravilhoso! Enquanto podemos melhorar, estamos vivos, e nos aperfeiçoando, e podendo atender melhor cada um de nossos clientes!

E claro, há planos para um 2014 pleno: almejamos que as parcerias estabelecidas se mantenham e fortaleçam, que novas parcerias sejam constituídas, que nosso blog se torne mais dinâmico e interessante, que os novos serviços que iremos propor (aguardem novidades nesse sentido!) sejam bem-sucedidos, que cada um de nossos membros possa cada vez mais e mais se manter com base no empreendimento e, assim, se dedicar cada vez mais exclusivamente a ele.

Mas acima de tudo almejamos em 2014 continuar atendendo com responsabilidade, ética, solidariedade, profissionalismo e carinho!

Desejamos a todos e todas um 2014 igualmente pleno de saúde, de escolhas com conseqüências positivas, de crescimento e de paz!

Um abraço com muito carinho,

Gabriela, Renan, Gustavo e Rafael.

O extraordinário caso de Daniel

Eventualmente ficamos sabendo por meio da mídia de casos de pessoas em condições de estudo consideradas extraordinárias. Um exemplo é o jovem Daniel Santana, que, aos dezesseis anos de idade, está cursando o mestrado no Instituto Nacional de Matemática Pura Aplicada. Daniel estuda no ensino regular à noite e faz o mestrado na parte da manhã. No tempo livre, se dedica a estudar mais um pouco e a atividades de lazer.

A notícia afirma que o rapaz “diz que considera a matemática ‘muito divertida’, que ‘quanto mais difícil mais legal’, e por isso não se cansa.” É natural que pensemos em pessoas como Daniel como sendo excepcionais, “superdotadas”, acima da média. Bem, vejamos o que está implícito nas informações que a notícia nos traz.

Em primeiro lugar, Daniel considera o estudo divertido, seu pai classifica os estudos para ele como “lazer”. O que quer dizer que, para ele, o estudo não é uma atividade cujas consequencias acarretam desprazer ou sofrimento, mas sim consequências positivas. Podemos inferir que ele conseguiu o grande objetivo que nós temos ao atender um estudante em apuros: o estudante se tornar um estudioso, alguém que gosta de estudar, não porque isso lhe dá uma boa nota ou acarreta em benefícios sociais, mas porque a própria aquisição de conhecimento é algo prazeroso, realizador. Uma evidência: Daniel comenta que “quanto mais difícil, mais divertido”. Se relacionar com os estudos de uma maneira positiva e estar (como dizemos em termos da análise do comportamento) sob controle do conhecimento como a recompensa pelo estudo não são privilégios de pessoas que começam cedo como Daniel, estão ao alcance de todos nós, desde que haja para isso condições adequadas. Quando não há, uma orientação bem feita acompanhada de esforço e perseverança do estudante resultará nesse mesmo resultado.

Outro fator relevante: Daniel é estimulado. Todas as pessoas têm interesses e habilidades que são desenvolvidas no decorrer de suas vidas. E são muito melhor desenvolvidas quando há estímulo por parte das pessoas do círculo próximo de convívio dos estudantes. Nesse caso, Daniel é filho de um professor de matemática que não apenas ajuda nos estudos do filho, como ensinou a ele conteúdos inclusive mais complexos do que ele aprendia nas aulas da escola. Coincidência? Claro que não. Então, temos a união de dois fatores importantes: o interesse a habilidade que Daniel desenvolveu, mais um contexto de suporte que favoreceu não apenas a aprendizagem, mas também a relação positiva com os estudos e a intensificação do desenvolvimento de suas habilidades e interesses. E ele não é o único. O pai de Amadeus era músico, e assim o foram também Amadeus e sua irmã. O pai de Amadeus lhe oferecia condições adequadas de suporte, estímulo, apoio e inserção no “mundo da música”. Amadeus compôs sua primeira música aos cinco anos de idade. Para quem não reconhece a história, esse menino é hoje mais conhecido por seu sobrenome: Mozart.

E temos uma terceira informação relevante: Daniel foi aceito para realizar um mestrado, mesmo sem ter ainda concluído o ensino médio. Embora essa condição também entre na categoria de um contexto de suporte e estímulo para o rapaz, decidi separá-la porque implica numa importante discussão que tem a ver com o foco deste post: foi permitido a Daniel realizar um caminho diferente do padrão previsto pelo nosso sistema educacional, no qual é necessário primeiro terminar o colegial, para depois poder ingressar em um curso de graduação e, este findo, realizar cursos de pós-graduação. Aqui faço referência apenas à carreira acadêmica, mas o mesmo se aplica à realização de cursos sequenciais e de alguns cursos técnicos. Essa maleabilidade favoreceu ainda mais o desenvolvimento da aprendizagem de Daniel.

Com relação a este último ponto, lidamos com uma condição complexa. Cada indivíduo é único, com suas próprias habilidades e interesses, sendo algumas habilidades mais desenvolvidas, outras menos. Cada um tem um ritmo de aprendizagem próprio, e um contexto familiar, de estudos, de rotina específico, que pode favorecer a intensificação desse ritmo e a relação positiva com os estudos ou não. Porém o sistema educacional é fechado em uma estrutura, para fins de organização, e as pessoas são encaixadas nessa estrutura, o que, a depender também de outros fatores (como a postura do professor em sala de aula e o oferecimento de atividades extra-aula para os alunos, por exemplo), muitas vezes faz com que a instituição que tem por função estimular a aprendizagem e a adoção de práticas de estudo que tornem o aluno não um estudante por obrigação, mas um estudioso por prazer (especialmente nas áreas que lhe despertam maior interesse), acabe por cercear o desenvolvimento de algumas das habilidades individuais. Além disso, nem sempre as habilidades menos desenvolvidas e desejáveis como pré-requisito para a continuidade da aprendizagem em etapas posteriores são adequadamente trabalhadas, criando uma condição de estudantes insuficientemente desenvolvidos em seus “pontos fracos” e muitas vezes tolhidos em seus “pontos fortes”. Nessas condições, são poucas as pessoas que conseguem se manter motivadas e estabelecer uma relação com os estudos favorável à uma gradativa condição de prazer ao estudar.

Como já abordamos no blog, esta é uma problemática complexa, dá trabalho e não é isenta de contradições e conflitos. Mas é essencial debatermos que tipo de modelo educacional queremos, e construirmos alternativas para avançar em direção a esse modelo.

De minha parte, estou convencida de que conheceríamos muito mais Daniéis se todos os estudantes tivessem condições tão favoráveis como as que ele encontrou: suporte e apoio por parte da família (e da maneira correta – leia-se não apenas por meio de incentivos verbais e com o cuidado de evitar sobrecargas ao estudante), suporte, apoio e maleabilidade das instituições (como a escola em que ele estuda e o instituto em que ele faz o mestrado), e uma relação positiva com os estudos (com prazer, sendo a própria aprendizagem a fonte de prazer). E a perspectiva de ajudar que mais pessoas consigam caminhar no sentido de adequar essas práticas é um dos meus grandes motivadores a trabalhar, junto a meus colegas, na CooPsi.

Um grande abraço,

Gabriela G. Mezzacappa.