O extraordinário caso de Daniel

Eventualmente ficamos sabendo por meio da mídia de casos de pessoas em condições de estudo consideradas extraordinárias. Um exemplo é o jovem Daniel Santana, que, aos dezesseis anos de idade, está cursando o mestrado no Instituto Nacional de Matemática Pura Aplicada. Daniel estuda no ensino regular à noite e faz o mestrado na parte da manhã. No tempo livre, se dedica a estudar mais um pouco e a atividades de lazer.

A notícia afirma que o rapaz “diz que considera a matemática ‘muito divertida’, que ‘quanto mais difícil mais legal’, e por isso não se cansa.” É natural que pensemos em pessoas como Daniel como sendo excepcionais, “superdotadas”, acima da média. Bem, vejamos o que está implícito nas informações que a notícia nos traz.

Em primeiro lugar, Daniel considera o estudo divertido, seu pai classifica os estudos para ele como “lazer”. O que quer dizer que, para ele, o estudo não é uma atividade cujas consequencias acarretam desprazer ou sofrimento, mas sim consequências positivas. Podemos inferir que ele conseguiu o grande objetivo que nós temos ao atender um estudante em apuros: o estudante se tornar um estudioso, alguém que gosta de estudar, não porque isso lhe dá uma boa nota ou acarreta em benefícios sociais, mas porque a própria aquisição de conhecimento é algo prazeroso, realizador. Uma evidência: Daniel comenta que “quanto mais difícil, mais divertido”. Se relacionar com os estudos de uma maneira positiva e estar (como dizemos em termos da análise do comportamento) sob controle do conhecimento como a recompensa pelo estudo não são privilégios de pessoas que começam cedo como Daniel, estão ao alcance de todos nós, desde que haja para isso condições adequadas. Quando não há, uma orientação bem feita acompanhada de esforço e perseverança do estudante resultará nesse mesmo resultado.

Outro fator relevante: Daniel é estimulado. Todas as pessoas têm interesses e habilidades que são desenvolvidas no decorrer de suas vidas. E são muito melhor desenvolvidas quando há estímulo por parte das pessoas do círculo próximo de convívio dos estudantes. Nesse caso, Daniel é filho de um professor de matemática que não apenas ajuda nos estudos do filho, como ensinou a ele conteúdos inclusive mais complexos do que ele aprendia nas aulas da escola. Coincidência? Claro que não. Então, temos a união de dois fatores importantes: o interesse a habilidade que Daniel desenvolveu, mais um contexto de suporte que favoreceu não apenas a aprendizagem, mas também a relação positiva com os estudos e a intensificação do desenvolvimento de suas habilidades e interesses. E ele não é o único. O pai de Amadeus era músico, e assim o foram também Amadeus e sua irmã. O pai de Amadeus lhe oferecia condições adequadas de suporte, estímulo, apoio e inserção no “mundo da música”. Amadeus compôs sua primeira música aos cinco anos de idade. Para quem não reconhece a história, esse menino é hoje mais conhecido por seu sobrenome: Mozart.

E temos uma terceira informação relevante: Daniel foi aceito para realizar um mestrado, mesmo sem ter ainda concluído o ensino médio. Embora essa condição também entre na categoria de um contexto de suporte e estímulo para o rapaz, decidi separá-la porque implica numa importante discussão que tem a ver com o foco deste post: foi permitido a Daniel realizar um caminho diferente do padrão previsto pelo nosso sistema educacional, no qual é necessário primeiro terminar o colegial, para depois poder ingressar em um curso de graduação e, este findo, realizar cursos de pós-graduação. Aqui faço referência apenas à carreira acadêmica, mas o mesmo se aplica à realização de cursos sequenciais e de alguns cursos técnicos. Essa maleabilidade favoreceu ainda mais o desenvolvimento da aprendizagem de Daniel.

Com relação a este último ponto, lidamos com uma condição complexa. Cada indivíduo é único, com suas próprias habilidades e interesses, sendo algumas habilidades mais desenvolvidas, outras menos. Cada um tem um ritmo de aprendizagem próprio, e um contexto familiar, de estudos, de rotina específico, que pode favorecer a intensificação desse ritmo e a relação positiva com os estudos ou não. Porém o sistema educacional é fechado em uma estrutura, para fins de organização, e as pessoas são encaixadas nessa estrutura, o que, a depender também de outros fatores (como a postura do professor em sala de aula e o oferecimento de atividades extra-aula para os alunos, por exemplo), muitas vezes faz com que a instituição que tem por função estimular a aprendizagem e a adoção de práticas de estudo que tornem o aluno não um estudante por obrigação, mas um estudioso por prazer (especialmente nas áreas que lhe despertam maior interesse), acabe por cercear o desenvolvimento de algumas das habilidades individuais. Além disso, nem sempre as habilidades menos desenvolvidas e desejáveis como pré-requisito para a continuidade da aprendizagem em etapas posteriores são adequadamente trabalhadas, criando uma condição de estudantes insuficientemente desenvolvidos em seus “pontos fracos” e muitas vezes tolhidos em seus “pontos fortes”. Nessas condições, são poucas as pessoas que conseguem se manter motivadas e estabelecer uma relação com os estudos favorável à uma gradativa condição de prazer ao estudar.

Como já abordamos no blog, esta é uma problemática complexa, dá trabalho e não é isenta de contradições e conflitos. Mas é essencial debatermos que tipo de modelo educacional queremos, e construirmos alternativas para avançar em direção a esse modelo.

De minha parte, estou convencida de que conheceríamos muito mais Daniéis se todos os estudantes tivessem condições tão favoráveis como as que ele encontrou: suporte e apoio por parte da família (e da maneira correta – leia-se não apenas por meio de incentivos verbais e com o cuidado de evitar sobrecargas ao estudante), suporte, apoio e maleabilidade das instituições (como a escola em que ele estuda e o instituto em que ele faz o mestrado), e uma relação positiva com os estudos (com prazer, sendo a própria aprendizagem a fonte de prazer). E a perspectiva de ajudar que mais pessoas consigam caminhar no sentido de adequar essas práticas é um dos meus grandes motivadores a trabalhar, junto a meus colegas, na CooPsi.

Um grande abraço,

Gabriela G. Mezzacappa.

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