Refletindo sobre: educação superior para quê e para quem?

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Hoje estamos iniciando uma nova linha de atualizações do blog, ” Refletindo sobre”. Essa linha se destina a discutir e refletir sobre controvérsias relacionadas à área da educação, da psicologia, entre outras possivelmente afeitas aos serviço que prestamos.

Para começar, hoje, vamos refletir a respeito da educação superior, em especial em relação à demanda por profissionais de nível superior e às escolas privadas de ensino superior.

Uma matéria da Revista Época (“A importância das boas escolas privadas”, Revista Época, n. 779, 29/04/2013) publicada recentemente abordou o crescimento das escolas privadas de ensino superior no país. A matéria ressalta a importância dessas universidades, afirmando que são elas que assumem o compromisso de receberem aluno oriundo de escola pública e entregá-lo ao mercado de trabalho com qualificação, em oposição às universidades públicas, que recebem alunos já selecionados pelo vestibular, geralmente oriundos de escola particular, a despeito das recentes ações afirmativas. Essa publicação também apresenta uma comparação entre custos de alunos de universidades públicas e particulares (R$14 mil por ano nas primeiras contra R$4,5 mil nas últimas).

Um dado aparentemente otimista, no entanto, só aparece no final da reportagem. “É meta estabelecida pelo país matricular um terço de toda a população entre 18 e 24 anos na faculdade até 2016. Hoje, apenas 13,7% frequentam um curso superior. Para chegar lá, escolas privadas terão papel crucial”.

Reparem: é meta alcançarmos um terço da população com curso superior. A questão é: por quê? Precisamos de um terço da população com diploma? Quantos cargos existem por aí com exigência de curso superior? De fato, existem muitos. Por exemplo, outro dia um anúncio de vaga para recepcionista e escola de idiomas indicava ser desejável ter ensino superior. O salário era inferior ao de um profissional de nível técnico: R$800,00.

Não parece uma extravagância colocar alguém com curso superior atrás de um balcão para receber alunos e fazer matrícula num software simples? Então, reformulemos a pergunta anterior: quantos dos empregos que exigem cargo superior têm necessidade das habilidades adquiridas em um curso superior? Provavelmente não são tantos assim, o que fica bastante evidente se gastarmos um tempinho procurando saber sobre o número de pessoas com nível superior que estão ociosas ou atuando em área distinta daquela em que se formaram. Os exemplos certamente serão inúmeros. 

Se falta tanta mão de obra especializada assim, o que essas pessoas são? Preguiçosas? Estarão as universidades formando profissionais que saem já obsoletos da universidade? Estará o mercado fora de sintonia com as ofertas e demandas de nossa sociedade?

A escassez de obra qualificada é, de fato, uma realidade para quem contrata. Porém a qualificação que é exigida pelo mercado não está necessariamente num curso superior, que demora anos para ser concluído, com alto custo (para o estudante e para quem paga, seja ele próprio, a família ou o governo). Ensino técnico, cursos profissionalizantes e, claro, formação básica de qualidade são suficientes para que muitos trabalhem bem.

Parece-nos, assim, que a exigência de curso superior tem também função de selecionar candidatos, talvez mais que de atender necessidades. Uma busca simples por editais de concursos públicos já é bastante reveladora. Boa parte deles são para pessoas “com nível superior em qualquer área”. Ora, para que, então, exigir nível superior? Obviamente, buscam alguém que teve acesso ao currículo oculto do Ensino Superior (o ambiente acadêmico, o contato com publicações científicas, ou simplesmente alguém que passou mais tempo estudando). Mas esse capricho é extremamente dispendioso para a sociedade.

Para permanecer estudando após o Ensino Médio não é necessário estar vinculado a uma instituição de ensino. Periódicos científicos estão disponíveis online gratuitamente, assim como conferências de cientistas, como é o caso das TED talks. A educação básica tem toda a potencialidade para formar pessoas interessadas no conhecimento, que buscam aprimorar-se, sem necessidade de curso superior. Outro exemplo são iniciativas de profissionalização, treinamento e auto-aprendizado, como o programa Thiel Fellowship (sobre este ainda são necessárias maiores reflexões).

O esforço das instituições privadas de ensino superior pode ser importante para o mundo como ele é hoje (será o que queremos?), mas é possível levantar dúvidas se é um papel tão nobre como foi anunciado na reportagem da Revista Época. Cabe, portanto, questionar para quê e para quem servem os cursos superiores e a solicitação do mercado de trabalho por esse tipo de qualificação em nossa sociedade.

***

Gostaram dessa nova linha de atualização do blog?

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Um grande abraço!

Equipe CooPsi

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2 respostas em “Refletindo sobre: educação superior para quê e para quem?

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