Professora, cintadas e psicólogos fajutos

Foi publicada ontem, no jornal Folha de São Paulo, uma matéria sobre uma professora que recomendou aos pais de um aluno seu que dessem cintadas no jovem para resolver problemas de comportamento (a matéria pode ser acessada clicando aqui). A professora recomenda, ainda, que os pais não deem ouvidos ao que falam os “psicólogos fajutos” sobre o uso de castigos físicos.

Entendemos que há várias considerações a serem feitas sobre essa notícia. Comecemos pela que parece ser a mais importante: não recomendamos o uso de castigos físicos (compreendidos aqui como palmadas, cintadas, e outros tipos de agressão, por mais leves que possam parecer aos olhos de quem faz uso deles). Há uma série de razões para isso, e enumerá-las pode servir como argumento contrário à tese de que somos profissionais fajutos. O efeito de castigos físicos é, em grande parte das vezes, a diminuição da probabilidade de o comportamento que os produziu acontecer novamente. Em termos mais simples: se uma criança faz bagunça, bater geralmente diminui a chance de que ela faça bagunça novamente. Castigos físicos tendem, portanto, a eliminar comportamentos. Se os responsáveis por uma criança não fazem outra coisa a não ser reprimir comportamentos inadequados por meio dessa estratégia, ela provavelmente terá um repertório muito limitado, ou seja, não fará muitas coisas. Como estratégia educacional, portanto, somente usar castigos físicos não é eficiente.

Além disso, independente de uso exclusivo ou ocasional, o castigo físico produz efeitos colaterais. O sofrimento do castigo físico pode ser associado a quem faz uso dele, ou seja, a criança pode associar a figura do responsável a dor e sofrimento. Além disso, indivíduos que sofrem castigos tendem a contracontrolar, isto é, tendem a fazer algo contra quem castiga para interromper a punição. Se a intenção é eliminar um mau comportamento, portanto, há o risco de outro ainda pior passar a ocorrer, e contra quem castigou primeiro.

O uso dessa forma de castigo ainda pode funcionar como modelo para aquele que o recebe. Isso quer dizer que há chances de aquele que foi castigado fisicamente tornar-se alguém que repete tais práticas quando for responsável por outro indivíduo, perpetuando o uso de punições corporais em nossa sociedade.

Todas essas informações estão presentes em publicações da Análise do Comportamento, uma área da Psicologia, além de outras relacionadas à puericultura (área da Pediatria, dedicada a acompanhar o desenvolvimento integral da criança). Apresentá-las aqui, portanto, é decorrente de estudo e dedicação de profissionais psicólogos.

Não poderíamos, porém, dizer somente o que não pode ser feito. Bons profissionais devem dar alternativas adequadas a práticas inadequadas. Nossa recomendação envolve uma mudança de olhar sobre o comportamento da criança. Não é o comportamento inadequado que merece maior atenção, mas o adequado. Se oferecermos consequências agradáveis para a criança quando esta fizer algo que julgamos correto, tais comportamentos tendem a ocupar o lugar daqueles que não queremos que ocorram. Grande parte dos responsáveis não interagem com os pequenos quando estão se comportando bem.

A matéria publicada na Folha de São Paulo recebeu vários comentários dos leitores. Muitos deles diziam que antigamente, quando se fazia uso de castigos físicos, as crianças não apresentavam problemas graves de comportamento e respeitavam os mais velhos. É verdade que temos problemas de comportamento típicos dos dias atuais e também é verdade que hoje não se faz uso de castigos corporais como antigamente. Não podemos, no entanto, dizer que os problemas de comportamento são decorrentes da falta de vara, cinta ou palmada. Antigamente, os pais também passavam mais tempo com as crianças, havia supervisão frequente, etc. Isso, assim como as palmadas, mudou. Deveríamos atentar também para os efeitos desses fatores sobre o comportamento dos jovens. Em suma, a recomendação não é apenas de não fazer uso de castigo físico. É também de fazer uso de interações positivas, agradáveis para a criança, quando esta se comportar bem.

Por fim, é importante dizer que a professora, embora não seja heroína (como muitos leitores sugeriram em seus comentários), está sujeita a diversos fatores associados ao sistema de ensino, que vão desde a sua formação até as atuais condições de trabalho, e que permitem tal conduta. Para mais informações sobre isso, recomendamos a leitura do post De quem é a culpa?, aqui no blog.

Equipe CooPsi

Nota: recomendamos a leitura dos livros Coerção e suas implicações, de Murray Sidman (Editorial Psy, 1995) e Eduque com Carinho, de Lídia Weber (Editora Juruá, 2007), os quais embasam este post.

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