Já para o canto: refletindo sobre o uso de punição na educação

Há algumas décadas, era prática corrente nas escolas o uso de punições físicas, tal como o uso de vara de marmelo para coibir o dito mau comportamento. Gradualmente, o uso de punição física foi perdendo aceitação social, e em seu lugar foi instituída a punição por meios mais sutis, como o constrangimento, os “sermões”, os castigos, as suspensões…

Os métodos e conteúdos educacionais têm ganhado espaço num debate na sociedade, causando grandes controvérsias. Porém, por vezes, o debate se dá apenas no nível particular, individual. Dificilmente ele é estendido para esferas que permitam a deliberação e a tomada de decisão.

A questão do uso de punição aversiva em sala de aula, e na educação de forma mais ampla, se relaciona com muitos outros aspectos polêmicos relacionados à educação, e tem implicações para além deles. É mais um dos assuntos importantíssimos que não recebem o devido destaque, não são pautados em espaços de discussão que não sejam maniqueístas – sim ou não, bem ou mal, certo ou errado, mas de construção conjunta do que queremos para a educação de nossos filhos. Gostaríamos que este tema, assim como outros, pudesse encontrar um espaço de debate aqui: vamos expor nossa opinião, ou lançar questionamentos, mas não somos os donos da verdade, queremos saber o que vocês pensam e que o espaço dos comentários seja usado, também, para realizar um debate honesto e com respeito à opinião de todos e todas.

Na perspectiva teórica da Análise do Comportamento, “comportamento” pode ser desde ser capaz de escrever uma informação correta, até fazer uma operação matemática, ou ser capaz de pensar criticamente. Nessa perspectiva, assume-se que cada indivíduo está em constante processo de aprendizagem, e que esta pode se dar por meio do uso de processos de reforçamento (“incentivo” a que certo comportamento volte a ocorrer) ou punição (formas de fazer com que o comportamento diminua sua frequência, não necessariamente envolvendo agressão). Sabemos, empiricamente, que os comportamentos que são mantidos por meio de processos de reforçamento (positivo) tendem a trazer consigo sentimentos positivos, melhora na auto-estima, alegria, motivação, satisfação, etc; enquanto os processos de punição aversiva trazem consigo sentimentos negativos, angústia, ansiedade, frustração, etc. Assim, um processo educativo pautado na troca entre aluno e professor, no bem-estar e no prazer em conhecer deveria ter como estratégia básica a implementação de procedimentos reforçadores.

A coisa seria muito bonita, se não fosse extremamente complicada: o que pode fazer bem à aprendizagem de uma pessoa, em termos de reforçamento, pode ser muito diferente do que pode fazer bem à aprendizagem de outra pessoa. Por exemplo, elogiar um aluno publicamente por um bom desempenho pode parecer ótimo, mas se o aluno em questão for mais tímido, essa mesma atitude pode ser aversiva – e trazer consequências negativas para o desempenho do aluno. Só é possível saber o que funciona bem para cada um, para promover um sistema de educação saudável, em que todos se sintam bem e aprendam de verdade, conhecendo profundamente a história de cada um.

Daí começa a ficar mais complicado ainda, e as diversas questões educacionais começam a se misturar: em uma sala de aula de quarenta crianças agitadas e curiosas, é humanamente inviável para um educador conhecer cada um em profundidade e construir estratégias de forma que todos os alunos possam aprender de forma satisfatória, prazerosa, e com o mínimo de uso de situações aversiva possível. Como deixar quarenta crianças sentadas na cadeira por uma hora e tanto sem repreende-las? Uma boa ideia para conhecer melhor o que funciona para cada um seria envolver os pais no processo, o que necessariamente traria situações de confronto de opiniões, além da dificuldade em exigir dos pais a participação em mais uma atividade, além das muitas horas de trabalho semanais, do cuidado com as questões domésticas, etc. Com relação ao confronto de opiniões, a construção de uma escola de acordo com os preceitos, valores e indicativos de cada pai ou mãe é praticamente impossível, ainda mais considerando o quanto não estamos acostumados a debater sem ofender e sem se sentir ofendido.

Com tudo isso, será que vale a pena tentar educar utilizando menos ou nenhuma estratégia de punição aversiva? É bastante utópico simplesmente dizer que sim. Porém, apesar das grandes mudanças que isso implicaria em todo um sistema de funcionamento educacional e, talvez, até familiar; apesar da aspereza do caminho que possibilitaria essa mudança e outras tantas rumo a uma sociedade melhor para todos, estaríamos, ao final dessa jornada, mais preparados para educar pessoas saudáveis, inteligentes, satisfeitas e cidadãs.

E você, o que acha disso?

Este post é o primeiro de uma nova categoria, promovendo debates sobre questões pertinentes ao nosso escopo de trabalho: educação, hábitos de estudo, orientação profissional, etc. Assim, gostaríamos de saber: que outros temas vocês gostariam que fossem tratados aqui, dentro desses âmbitos?

Um grande abraço!

Equipe CooPsi.

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